10.5.08

Terminal de autocarros

A última vez que reparei tinha deixado de pensar. Foi como se, de repente, os avisos de sempre finalmente servissem de alguma coisa.

Ainda me lembro bem do momento: estava a pensar em qualquer coisa e começaram a faltar-me as ideias (como quando, para escrever ou falar, faltam as palavras), uma a uma, e fugiram. “Olha o cigarro numa manhã fria a fugir! Olha o traço contínuo ideal para alguém se agarrar a desaparecer! Olha os meus dias bons!”

Ficou só isto, a forma. Ficaram anos e anos de aprendizagem. O conteúdo, esse, acabou.

12.1.08

Cegueira

Está na hora de perder a parte de cima do fato. É agora que perdes a compostura e te deixas levar pelo álcool e pela tua vontade requentada. O espectáculo é deprimente, não por tua causa, mas por nossa. Aqui, feitos tetraplégicos, mexemos os olhos perfeitamente enquanto seguimos o teu movimento, as tuas acções, a tua vida. É esta a nossa vida. Mas, ei, podia ser pior.

Como se se importasse

Tentámos chamar-te antes de te meteres à frente daquele carro. Agora não vale de nada, sei eu (e eles, que vão chorando para ali, também sabem). Mas, ainda assim, espero que, a haver o algo mais e o tudo o resto, consigas ouvir-me (ou ler os pensamentos) e pensar que fizemos tudo o que podíamos. Nós chamámos-te. Quase, pelo menos.

Ninguém precisa de saber

Envolto que estou em nevoeiro, que lá em cima não há nada, deixo-me levar por pensamentos de viagens e regressos. Imagino os recantos da casa, a cara de alegria e os momentos memoráveis. Imagino a luta diária (ainda que por poucos dias) para entender o que dizem e isso faz-me querer estar mais bem preparado para quando a altura chegar. A altura nunca vai chegar, bem o sei, mas porque não manter essa pequena informação em segredo? Ninguém precisa de saber que sonho acordado. Continuem, por favor. As vossas vidas regressam já a seguir.

23.9.07

Hora de ponta

Espero que cortes a altura do que me interessa pela metade. Espero que pintes o que me interessa mais escuro (não muito mais!) e que me deixes mover à vontade.

Odeio este aperto. Transformaste este largo em corredor estreito e continuas a estreitá-lo alegremente. Odeio o que fizeste comigo. Se pudesse, mudava tudo em três ou quatro dias. Se pudesse, inventava uma máquina da boa vontade. Da minha vontade.

Como não sei exactamente o que pretendes (a última vez que pensei nisso cheguei à 'conclusão' de que pode ser passado, presente e futuro), espero que mo digas um dia. Sabes que nunca to perguntarei, como nunca perguntarei centenas de outras coisas. Espero auxílio divino, à falta de melhor.

Espero que continuemos todos de boa saúde. A sério que sim. Mas espero poder respirar melhor que agora.

Então não querem lá ver...

Acho que estou feito.

Passo a explicar. Entrei numa espiral de pouca qualidade, num carrossel de segunda. É como se, de repente, tivesse deixado de me importar com o bitrate dos MP3, com o artwork dos álbuns e com a qualidade das letras.

De repente, estou avariado. Preso numa década que não é a minha, num país que não é o meu. O pior é que não faço muito para evitar a situação.

Resta-me ouvir-vos com atenção, que a esperança é a última a morrer.

10.9.07

Confiança

Quando me disseram que estava na altura de descer, não acreditei. Para todos os efeitos, ninguém parecia cansado ou infeliz. Admito que talvez pudesse estar distraído com o espelho que colocaram à minha frente… mas é como digo: ninguém parecia cansado ou infeliz. Sabíamos que um estava morto há já umas horas, mas morto não é o mesmo que cansado ou infeliz.

Eles insistiram muito. Mas faziam-no tão graciosamente que, dado o problema de ligação entre os hemisférios esquerdo e direito do meu cérebro, não percebi o que queriam realmente dizer. Olhei com desdém e arrependo-me de o ter feito. Ninguém merece o meu desdém. (Nota mental: no geral, mudar de atitude.)

Espero que me perdoem. Agora percebo. Talvez seja tarde demais mas agora sei realmente que está na altura de descer.