30.7.04
A estufa e a corrrrrrrrrente de ar.
Eles não sabem de nada. Não percebem o que está a acontecer. Porque não está a acontecer nada. Continuo tão estúpido como há três dias. Continuo tão perspicaz como há três dias. Continuo tão desligado do mundo como há três dias. Continuo tão insensível como há três dias. O que é que se passou há três dias? Nada. Tudo igual.
Não foi assim que me conheceram? Porque haveria mudar tão repentinamente. Talvez tenha nascido um monstro. Talvez. Provavelmente, esperei demasiado tempo. E eles... eles não sabem nada. Nem eu.
E assim, tendo sido um mero pensamento apanhado em excesso de velocidade, recuso a ligação à terra. Terra, pó, pedra, merda. Multem-me por não concordar com eles. Censurem o texto e recusem a minha opinião. Torna tudo tão mais fácil.
Olha para as ondas, envoltas num manto de espuma. Não lhes pertence. Nem um pequeno espaço. E este texto também não. Nem uma vírgula. Nem um único ponto final. Olha bem para as ondas. Onde está o manto de espuma? Morto, enterrado em areia movediça.
Não se passa nada. Nem o fogo-de-artifício lá ao fundo, nem as árvores que ardem e me cobrem de cinzas, nem a vida que acabou naquele instante. Nada disso se passa. Por incrível que pareça.
Já alguma vez foste julgado num dia?
28.7.04
Reabilitação (urbana)
Arrisco-me e vou ter contigo, agora, tarde demais para ti. Arrisco a pele e a roupa e escavo um túnel que me leva a ti. Sem banalidades, sem quotidiano. Vivo com este objectivo. Viciei-me em ti. E quero acabar o túnel. Quero poder ver a luz do dia, quando fores velha. Quero ver-te velha. Quero que me aceites velho. Se o não fizeres... o túnel continuará aberto. Se mudares de ideias, corre depressa. Talvez ainda haja tempo. Sem truques, por favor.
Uma última palavra. Um último retoque na tua maquilhagem.
27.7.04
Talvez tivesse sido um pintor/Selvagem
26.7.04
Fantasma. (Antítese do choro de criança.)
Continuo sem me lembrar do que me trouxe aqui. Talvez tenha sido um automóvel. Ou até uma nave espacial. Esqueçam os homens verdes. Se estivesse numa nave espacial, não haveria sondas anais nem ameaças ao nosso querido planeta. Os homens verdes estariam sossegados no seu canto. E eu divertir-me-ia a conduzir uma daquelas máquinas supersónicas. Talvez jogassem às cartas, entretanto. Não sei. Lá de longe veria a nossa galáxia... pequeno ponto luminoso ao longe... a ser salpicada por tons de negro que escorriam acidentalmente do espaço.
Controlar-lhes-ia a mente. Se a tivessem. E mentir-lhes-ia acerca do meu planeta e das pessoas que conheço. Como é óbvio. Depois de um café e de uma conversa amena, explicar-lhes-ia a rotação da Terra, os fenómenos religiosos (e eles rir-se-iam, certamente), a Justiça. Se calhar fiz isto tudo hoje. Mas, por azar, não me lembro.
Se tiver vindo de automóvel, aí talvez tenha havido alguma emoção. Se não sofresse um acidente, ficava contente. Se não fosse insultado, não ficava contente. Mas também não ficava triste. Se por acaso apanhasse um domingueiro à frente, não aguentava. Teria de o insultar fortemente. Estou aborrecido. Não me lembro do que me trouxe.
Estou aborrecido.
25.7.04
Fecha a porta com cuidado. (Melhor, bem melhor.)
24.7.04
Pentágono entre 2 mulheres.
Os médicos e cientistas têm todos batas azuis. Claras. Como nos filmes. E como quando me operaram. Não foram os mesmos. E não havia cientistas. Ah! E as batas eram verdes. Pelo menos antes de me operarem, eram. Talvez depois tivessem organizado uma festa e, enquanto serviam vodka, licores e whiskeys, despiam-se, transformando aquilo numa perversão sexual, enquanto eu dormia anestesiado. E as luzes mudavam de cor e começava tudo a dançar ao som de música de dança. E a médica que me operou era certamente a maluca de serviço.
Vou ser geneticamente modificado. Ou transformar-me-ão em centro de mesa de um qualquer buffet de casamento, desta vez? Deixo isso ao critério deles. Espero que não aproveitem para brincar com o meu corpo. Quer dizer, é exactamente isso que é suposto fazerem, mas não gostava muito que me deixassem alterado a nível externo. Talvez um receptor de rádio ou um dínamo de bicicleta. Tudo muito genético.
23.7.04
Follow that car!
Mensagem:
“Descodifica.”
Fim de mensagem.
Leva-me a sério desta vez. Tenta descodificar. Pensa. Recordo vagamente que “pensar é dizer não”, “pensar é resistir”. Gosto de pensar assim. Mas não sem antes pensar sobre isso. Como se o pensamento se sobrepusesse numa hierarquia de valores. Os valores, que estão acima dos pensamentos (estarão?). Mas antes disso, temos de pensar neles. Agora. Ou depois. Tanto faz.
O parágrafo acima não é descodificável porque não há qualquer código.
Gostas?
Não. Não?
Percebeste a mensagem?
21.7.04
O próximo comboio parte amanhã. (Sou vago.)
E o homem que olha fixamente para mim não tem olhos como os teus e os meus. São auxiliados por uma bengala. Distingue o escuridão da claridade. Pode considerar-se um sortudo. Eu não vejo nada. Pelo menos, não vejo o que queria ver. Talvez devesse sentir-me contente pela minha aparente superioridade. A relativização de tudo. Ridículo. Talvez seja mais feliz do que eu. Basta que seja feliz para o ser.
E tu, que tocas piano enquanto escrevo, pára. Não custa nada. Basta que desistas de procurar palavras sem sentido numa música que já acabou há anos. Foi há anos. Se estava na garantia, tiveste azar. Se não estava... tinhas tudo para conseguir tocar a música durante mais tempo. Perdeste uma tecla. Que idiota.
Cala-te. Vou atrás de ti agora. Não sei onde estás. Mas.. foda-se... PERDE-TE! Deixa-te cair uma única vez. É o suficiente para mim. Ou então senta-te à minha espera. Com dificuldade, lá chegarei. Paciência. É pedir demais, não é? Cai o pano.
19.7.04
let it fall
18.7.04
Lar doce lar. (Nevoeiro.)
A minha rua está em ruínas. Ardem ainda algumas portas de madeira, que caíram sincronizadamente para o meio da rua. Os vidros estalaram. Os meus ouvidos também. Deixei de ouvir.
Está um dia bonito.
17.7.04
Queres casar comigo?
Tenho mais alguns problemas. É pesada. Fico muito cansado. Também não há luvas que sirvam. A minha avó fez uma à minha medida e sempre que está frio, uso-a. E gosto muito.
Pensando bem, não é tão útil assim. Odeio a minha mão de madeira.
14.7.04
Las Vegas. Los Angeles. (La la la la.)
Hey! Onde é que vais com o meu cérebro? Eu sei que não o tenho usado muito ultimamente... mas talvez me fosse útil num dos próximos dias! Vá lá... olha, tenho uma festa de anos e não posso ir para lá sem cérebro. O que é que os meus amigos vão pensar? Se quiseres, fazemos um acordo. Dou-te um rim e três dedos dos pés. O valor é quase equivalente. Na verdade, acho que ainda ficas a ganhar. Olha, rego-te as plantas duas vezes por semana durante o próximo mês. E pago-te.
Ai... este cérebro, este cérebro... só me dá é trabalho!
12.7.04
19 horas e 23 minutos numa paragem de metro. (Optimismo.)
11.7.04
Intervalo. (100 metros.)
Rendição. (Assinar por baixo, por favor.)
Eu avisei que era ridículo.
10.7.04
Distracção. (Exacto.)
Já tentei mostrar-lhe que, se eu quiser, ele desaparece. Mas não. Sei que não é assim. E ele sabe que não é assim. Tomou o controlo. Estou perto de me perder. Se me esquecer de ti, não fui eu quem se esqueceu. Foi o monstro que criei. Ele não gosta de ti. Ainda bem. Caí da cadeira. Espero conseguir levantar-me antes que ele acorde e tome o meu lugar.