30.9.04

I could get used to it.


Name it.

29.9.04

Ai!

Estou sentado, como é habitual, num muro pequeno, perto da paragem do autocarro. Sopra um vento fresco que não o é suficientemente para ser frio. O sol põe-se daqui a nada e eu... bem, eu espero pelo autocarro no sítio do costume. A viagem foi inútil mas a frustração ainda não apareceu. Talvez nem apareça hoje e fique a descansar em casa. Até a frustração tem direito a um lar, não? Quentinho, com um sofá e uma televisão. Será que a frustração tem filhos? E um “senhor frustração”, há?
A inutilidade deixa um vazio estranho. Deixa-me ancorado a este muro. Já passaram dois autocarros e não quis levantar-me. Talvez o tempo justifique o atraso. Talvez o tempo torne a viagem útil. Talvez não. Sinto que foi inútil. Quando chegar a casa, estarei cansado e, provavelmente, frustrado. Mas não me apetece. Preferia ficar contente por ter ido passear ao sítio do costume e por me ter sentado no muro pequeno, como é habitual. Mas não estou contente com o hábito. Deixa um vazio estranho, este marasmo. Deixa-me colado a este muro. E as palavras de ordem que estão escritas na parede do outro lado e as assinaturas ilegíveis e os cartazes publicitários e políticos... onde estão?
Deixa-me cego, esta espera forçada. E sinto uma perna dormente. É inevitável esperar que tudo desapareça daqui. Mas não quero um vazio estranho. Nem o filho da puta de um vazio confortável, o do costume. Se quisesse vazio... bem, arranjava uma maneira de o conseguir. Mas não o quero. E um autocarro agora ajudava. Acho que sou capaz de me levantar e correr.

28.9.04

Ingénuo

Encontrei uma rapariga que me acusou de ser parvo. Fiquei incrédulo. Não a conhecia de lado nenhum e perguntei-lhe porque é que me dizia aquilo sem me conhecer de lado nenhum.***
Ela riu-se de mim, transformou-se numa tartaruga e fizemos uma corrida. Ela ganhou e voltou a chamar-me parvo. Irritei-me e fiz questão de lhe dizer que não tinha quaisquer bases para me insultar assim. Ela ficou séria.
“Estás infectado e sabes disso. Que é que vais fazer?”
“Vou trabalhar.”

*** Reparem na facilidade com que a personagem responde a pessoas que o abordam na rua. Deve vir de uma aldeia do interior, certamente. (Nota do autor)

26.9.04

Desvio

Encontro respostas para perguntas que não fiz e queimo o que resta de uma camisola velha, quase amiga de tão velha que é. É toda azul e a princípio não gostei muito dela. Trouxeram-ma e deixei-a ficar por casa. Comecei a vesti-la quando tinha frio e as outras não eram suficientemente quentes. Esta era. Foi.
Parado, vejo-a arder e não me recordo de nenhum momento importante que tenha partilhado com ela. Só me lembro do dia em que a manchei irremediavelmente de cera. Não me parece muito importante. Talvez o tenha sido para ela.
Desapareceu e transformou-se em cinza. Preciso de um frasco.

25.9.04

Há duas horas atrás

Espero que não repares na casa desarrumada e na minha cara de parvo enquanto te digo isto. Desvia o olhar ou deixa cair qualquer coisa. O meu reino pela tua dispersão habitual! Ou não. Dou-te dois terrenos e já podes agradecer a sorte.
Quanto à minha cara de parvo, é uma qualquer. É a do costume. É uma nova. Não vai tudo dar ao mesmo? Não são todas elas as mais ridículas do mundo/de sempre? Bem, não é propriamente um motivo de orgulho, mas estou a escrever sobre isso. É como que uma reflexão distorcida acerca da realidade que não é.
Podia focar a casa desarrumada. Cada detalhe do quotidiano. Cada migalha de pão. Cada móvel com pó. Cada peça de roupa que não foi pendurada ou posta para lavar. É aquilo a que habituei meio mundo. Uma casa desarrumada e uma cara de parvo. A do costume ou outra.

22.9.04

Ouves-me estalar?

Sento-me à espera de um autocarro. Não sei qual é que vou apanhar. Talvez faça como aquela rapariga que gostou do número e do destino. Bem, ela perdeu-se depois. Coitada. Talvez não aconteça comigo. Espero que não.
Está um calor infernal. O sol está alto e o dia está limpo. Como sempre, não é? E eu olho e o senhor que, com o seu semi-olhar (ele tem uma pala no olho esquerdo), repara em beatas no meio da estrada enquanto fuma um cigarro de chocolate, chama-me a atenção para as baratas estaladiças que saiem da sarjeta. Não acho especial piada a esse aviso. Mas agradeço e ele responde-me qualquer coisa sussurrando. Não percebi. Só percebi “resto” e “lulas grelhadas”. Estranho.
E chega um autocarro. Tem pouca gente. Entro e espero que me leve para longe daqui. Digo adeus ao senhor vesgo e agradeço-lhe a companhia. Ele sussurra qualquer coisa. Não percebi absolutamente nada. Nada mesmo.

21.9.04

Whatever.

O vento apagou-te. Viste-o a chegar e tiveste tempo de dizer adeus. Contaste-me uma história antiga, daquelas a preto e branco, e desapareceste sozinha e sorridente. Não estava mau tempo nessa tarde. Uma ou outra nuvem e um ou outro minuto em que a temperatura desceu. Pouco, muito pouco, para ser considerado mau tempo. Estava bom tempo. E o vento veio e apagou-te, como querias.
Pensei ter-te perdido num restaurante, um dia destes. Mas já o vento te tinha levado e a minha perspectiva estava distorcida pelo álcool. Não eras tu, era uma pantufa que trago no meu carro. E perdi, de facto. Perdi só uma... o que me deixa aborrecido. A outra ficou inutilizada. Coitada. E coitada de ti, que foste apagada pelo vento... porque o pediste antes de o vento saber que o era.

20.9.04

A liberdade é uma maluca/It's gone.

Nada disso. Então não viste o carro que passou agora? Estava cheio de raparigas bem vestidas. E tinha um anão ao volante. Eu sei que ele era anão porque ia a recitar os Lusíadas. Ainda ouvi uns três ou quatro versos, mas ele ia bastante depressa. Era um carro preto, descapotável. Não reparei na marca porque estava bêbedo. Foi há dois segundos. Mas agora não estou bêbedo porque tenho de escrever. Tenho a mão inchada. De tanto escrever, talvez. Como sempre, não é?
Agora, por favor não refiras este episódio a ninguém. Nem às tuas amigas patéticas que te impedem de cortar os pulsos. Com uma colher ou uma esponja, tanto me faz. Corta-te para aí, ó! Agora tenta ficar caladinha e vê se adormeces. Era anão, sim! Tenho a certeza. Agora dorme.

18.9.04

Impertinente... outra vez.

Hoje poderia responder-te, homem desorientado e apressado. Hoje sei que não ficaria calado. E hoje... bem, hoje sei que não te ririas da minha cara. Nem do susto. Nem dos autocarros que partiam naquela tarde quente. Ambos sabemos que as tuas tentativas seriam vãs. Hoje.
Não evito. Corro e mato-me, tropeçando num calhau mal localizado. Mas é mais forte do que eu. Mesmo morto, levanto-me e continuo a correr. Porque é isso que quero agora. Correr e não fugir. Correr atrás de alguma coisa. E tu, homem desorientado e apressado, que ficas para trás, esboçando um adeus com o olhar... bem, hoje pareces-me habituado. Ainda bem. Não me pareces maluco. Not anymore.
Olha, gostei de te conhecer. Hoje, estamos ambos bem. E os autocarros continuam a partir. E a chegar.
Afinal não estou morto.

17.9.04

Bolso.

Entrego-te as chaves e o caderno em que escrevo estes rascunhos. A casa estará fechada durante algum tempo, portanto guarda-os bem. Queima o que tiveres a queimar. E se precisares, podes arrancar folhas do caderno. Deixa-me uma página só. Sabes qual é, não sabes? Sabes.
Quanto às chaves, podes usufruir delas para entrar quantas vezes quiseres. Mas não venhas... porque vais querer voltar. Certamente. Guarda-as num sítio seguro. Talvez no céu, perto da nuvem mais clara. Ou na areia, junto ao vento. Tenho a certeza de que não te esquecerás delas. São três.

15.9.04

4 dedos numa mão e 6 noutra.

Deitado, ouço-te e vejo na tua cara o reflexo dos mil e um tons de perfeição que o sol decidiu adoptar hoje. Tarde demais, no entanto. É de noite e continuo a esperar que o sol se ponha mais tarde do que o costume. Mas já desceu há horas. Ainda o vejo, no entanto. Tirei uma fotografia só minha. Não a vou apagar.
Deitado, vejo-te e ouço algumas palavras que inventas. Não as conheço... são inventadas, certamente. E gosto de as ouvir deitado, confiante no chão de madeira em que repouso. Sem roupa, sem pele, só eu e a madeira agora morna numa cacofonia de gritos, dedos a estalar e uma respiração alta. Mais do que o habitual.
Vou levantar-me na esperança de que não seja demasiado tarde... mas o sol já se pôs. Acho que percebi.

14.9.04

Forget her.

Não conheço aquele rapaz. Ele chora baixinho. Tenta parar quando me vê. Mas está à porta de minha casa. Afasta-se cabisbaixo e eu não me sinto no direito de lhe perguntar porque chora. Também não responderia, provavelmente. Fecho a porta e olho pela janela, afastando a cortina com dois dedos da mão esquerda.
“Gritou alto,
Perdeu a voz.
Ninguém o ouviu.”
As palavras parecem estar escritas no vidro da janela. Não estão, certamente. Na minha cabeça ou no blusão de ganga do rapaz... noutro sítio não podem estar. Vejo-o afastar-se e esqueço-me de como era a cara dele. Se o vir na rua amanhã, não o conheço. Não sei porque chora.
As palavras perdem sentido quando são escritas.

13.9.04

Outra vez.

Desci do telhado pelo lado de fora. Fi-lo cuidadosamente e tive consciência de que era perigoso. Mas tinha de o fazer. Tinha de saber como era descer pelo lado de fora. Os quatro andares, a vertigem, a queda.
Lembro-me de ter tremido muito. Dia quente e noite fria. Durou uma noite inteira. Lembro-me de que esteve sempre escuro. Quando olhei para a rua, não estava lá ninguém porque ninguém queria saber se eu conseguia ou não. Não tinham sequer uma opinião formada. Obrigado, vizinhos!
Talvez devesse ter caído... mas estou a escrever, certo? Não morri, não me magoei. Talvez tente mais uma vez. Talvez tenha sonhado. Espero que não.

9.9.04

Inimputabilidade.

Pisei as folhas caídas das árvores e não ouvi nada. Não foi a primeira vez que aconteceu. Mas não é muito habitual. Estranhei e olhei para os meus pés. Estava sentado e descalço. Olhei para a frente outra vez, disposto a levantar-me e a seguir caminho. Mas já não estava na rua. A sala escura, sem luz, sem nada, não foi propriamente original. Senti-me quase em casa. Sei que tinha os olhos abertos, mas não via nada. E havia uma música de fundo... que me recordou de como é bom acordar. E agora que não vejo nada e que acordo repetidas vezes com tudo controlado na minha mente, olho para os pés novamente e as folhas estalaram. Olho para a frente e a luz branca do candeeiro ilumina o jardim. Não estou habituado a ela. Olho para outro lado e sigo caminho. E as folhas continuam a estalar.

8.9.04

Branco, cinzento e azul.

Hoje sentei-me num dos bancos de uma das carruagens de um dos comboios que circula numa das linhas do metropolitano de Lisboa. Sentei-me junto a uma janela à qual encostei a cabeça. Senti-me apático. A rapariga cega que mendigava pelas carruagens com uma voz que se arrastava e me irritava, as conversas entre pais e filhos, os jornais e revistas com manchetes bastante curiosas e o constante abrir e fechar de portas, nada me tirou a seriedade do rosto. Uma seriedade mórbida e invulgar que me possuiu e me castrou os movimentos. Tive sorte. Lembrei-me de sair na estação certa. E a tempo. Mas depois esperei durante minutos (ou terão sido horas?) por alguém que apareceu devagar, como um filme sem imagem bem definida... cujo fim explica bem tudo o resto. E a banca de jornais e as pessoas agitadas e os polícias que se riram na minha cara e eu... tudo inútil. O trânsito aborreceu-me. E então decidi partir à aventura... para fazer compras. E hoje, especialmente para mim, o produto desapareceu de todas as lojas a que costumo ir. Como que por magia. Talvez possa invocar a Lei de Murphy. Mas não tenho nem um motivo para o fazer.

6.9.04

Janela.


... and watch the weather change.

My head came off.

A noite é um arquivo de expectativas. Mas é também o símbolo da minha liberdade como ser humano que pensa. Deixo-vos soltas, palavras, para que possam escrever-se e continuar a viver por vocês, sem que eu interfira. Não gosto de interferir com a escrita de quem não viveu antes. Daqui a pouco, talvez, desapareça e vos deixe à vontade. Para já, fico aqui a ver-vos aparecer e desaparecer, conforme os erros e a disposição dos dedos. E isto não passa de um mero sonho onde eu posso largar o teclado. Ele continuará porque sabe que quem escreve é ele e não eu. Escreve e não sente. Sente que não deve demonstrar sentimentos. Afinal, é um teclado. Que sentimentos pode ele ter? Não precisa de provar. Está consciente do que quer. E, por agora, quer escrever mais páginas da mesma história. Acha-lhe piada. E eu assisto calmamente às letras que formam palavras que formam frases que vão aparecendo. Gosto deste processo. Peço desculpa, mas gosto mesmo.

4.9.04

Ainda a casa assombrada.

Ardeu completamente e continua assombrada. Não há nada que os expulse daquela maldita casa. E eles, contentes, por lá continuam com as suas festas nocturnas, com os seus lençóis brancos (com buracos para os olhos) e com bebidas alcoólicas nos armários. Não arderam no incêncio.
Procuro nova casa, então. Desisto de os combater. Não quero fantasmas. Estou farto deles. Já não me assustam. Mas incomodam tanto. E eu estou farto deles.
Quero paz. Quando chegar a casa, quero estar descansado a fazer o que me apetecer em qualquer altura. Não me apetece ter de estar constantemente a arrumar o que eles desarrumam e a ouvir sempre a mesma gritaria cada vez que há jogos de futebol na televisão. Não quero ter de partilhar a cama com dois antigos polícias. Acho que eles não gostam muito de mim. Prefiro uma cama minha. E eventualmente, se me apetecer partilhá-la... faço-o com uma pessoa escolhida por mim... Ah! E já agora, viva.

3.9.04

O acidente que não foi.


Foi o nevoeiro, certamente.

Rubber man.

Atiro-me à água fria e volto à superfície. Enxugo os olhos, abro os braços e flutuo.
E hoje, às 3.18, páro de pensar.

2.9.04

Par ou ímpar?

Até que desapareça completamente.

Posso saltar se me apetecer. Alto, bem alto. Se um dia saltar e não voltar passados alguns minutos, desapareci. “Eras capaz de matar, não eras?” Talvez.

Tantos meses e anos e séculos perdidos numa escuridão propositada, num medo estúpido de perder o que se conseguiu. E assim encontro a fórmula para a derrota anunciada. O melhor a fazer é esperar, dizem eles. Espero. Espero. Espero.

Vou telefonar para todos os hospitais, todas as esquadras, todos os amigos e alguns familiares. Não está em lado nenhum. A fórmula do desaparecimento ou da morte?

Há sempre um conjunto de elementos interessantes... e ninguém desaparece durante a noite. Então morreu... ou matou.