Estou sentado, como é habitual, num muro pequeno, perto da paragem do autocarro. Sopra um vento fresco que não o é suficientemente para ser frio. O sol põe-se daqui a nada e eu... bem, eu espero pelo autocarro no sítio do costume. A viagem foi inútil mas a frustração ainda não apareceu. Talvez nem apareça hoje e fique a descansar em casa. Até a frustração tem direito a um lar, não? Quentinho, com um sofá e uma televisão. Será que a frustração tem filhos? E um “senhor frustração”, há?
A inutilidade deixa um vazio estranho. Deixa-me ancorado a este muro. Já passaram dois autocarros e não quis levantar-me. Talvez o tempo justifique o atraso. Talvez o tempo torne a viagem útil. Talvez não. Sinto que foi inútil. Quando chegar a casa, estarei cansado e, provavelmente, frustrado. Mas não me apetece. Preferia ficar contente por ter ido passear ao sítio do costume e por me ter sentado no muro pequeno, como é habitual. Mas não estou contente com o hábito. Deixa um vazio estranho, este marasmo. Deixa-me colado a este muro. E as palavras de ordem que estão escritas na parede do outro lado e as assinaturas ilegíveis e os cartazes publicitários e políticos... onde estão?
Deixa-me cego, esta espera forçada. E sinto uma perna dormente. É inevitável esperar que tudo desapareça daqui. Mas não quero um vazio estranho. Nem o filho da puta de um vazio confortável, o do costume. Se quisesse vazio... bem, arranjava uma maneira de o conseguir. Mas não o quero. E um autocarro agora ajudava. Acho que sou capaz de me levantar e correr.