26.10.04

Guarda.

Apesar de tudo, penso e preocupo-me com o espaço por preencher. Esse mesmo. Viste-me ali deitado? Claro que não. Seria um desastre. Quebravam-se os mitos e as lógicas inabaláveis. Quebravam-se os postes de aço ao menor toque. Se me visses ali deitado, a tentar por tudo ocupar o espaço por preencher, não acreditavas.
Tentei voar para preencher um pouco do teu céu e tive medo de cair.

18.10.04

Espaço por preencher

Bom dia, boa tarde ou boa noite, dependendo do teu fuso horário. Fiquei preso num limbo temporal. E o pior é que não sei há quanto tempo estou aqui.
Ilumina-me hoje (ou será ontem?) e realça algo. Pode ser uma expressão ou uma deficiência (aqui a escolha é variada). Tu é que escolhes. Mas ilumina-me.
Construído que está o parque de estacionamento para todos os autocarros e respectivas alegorias futebolísticas, está na altura de semear alguma coisa. Escolhe tu. Sei que não estou a ser simpático. Mas... bem, um pouco de responsabilidade não te faz mal nenhum. Se me deixares inválido durante o processo, tenho seguro. Se me matares... vais presa, pois.
Mas se conseguires iluminar-me hoje, ontem ou quando quiseres (o que quer que isso seja!) de ângulos diferentes... acho que não é tempo perdido. Acho mesmo que não é tempo perdido. E a tua mão treme porquê?

14.10.04

Faster.

Não pensei em ver-te ali sentada no meio daquela gente. Talvez estivesses distraída. Talvez não tivesses percebido o que se passava à tua volta. Tintas e alguns plásticos fizeram-te ver o que querias ver. E choveu, tal como querias. Choveu fortemente e o vento empurrou-me contra a pedra fria, molhada e suja.
Talvez tenha dificuldade em perceber. Talvez esteja perfeitamente estático numa realidade que muda diariamente. Ou estou só a dormir um sono raro. Olhos fechados e silêncio à noite. Separei-me do corpo e esqueci a respiração necessária. Espero voltar a tempo de fornecer um pouco de oxigénio a uma ou outra partes do corpo. E penso nisto, sim.
Não tenho dificuldade em perceber. Escrevo sem razão.

12.10.04

Se tivesses.

Abre mais uma ferida e espalha sal pelo meu corpo. Tenta prolongar esta sensação e não me mates já. Mata-me logo, se quiseres. Ou fica a ver-me morrer de forma (pouco) especial. Senta-te à minha frente e repara nos meus olhos.

(...)
São os meus olhos que vês? É a cor única dos que não choram. Isso explica muita coisa. Mas são os meus olhos, esses que tens na mão? Perdoa-me a insistência mas não consigo ver bem. Tenho feridas (faço um esforço, sim!) nos joelhos mas não me levanto. A tua vontade não é tão forte como costumava ser. Nem a minha. E fraquejo perante “a luz” (sim, existe mesmo uma luz!). O coro explica o futuro e o presente. Falta o passado, não é? Afinal, na morte não me interessa o futuro. E, foda-se, o presente (contínuo) é “estou morrendo, porra”. E o passado? Enfim, talvez não interesse assim tanto.

(...)
Later.

11.10.04

Pantógrafo.

Esquece o cigarro mal apagado no chão e o pedaço de papel mal rasgado que voou. Esquece-os e fecha os olhos. Agora vê se dormes. Tenta. E acorda cedo amanhã. Parece simples.
Ainda sentes o cheiro nas mãos e na roupa. Perdoa-te o descuido. Adormece calma e serenamente (que é como se deve adormecer) e acorda só de manhã. Amanhã.