28.5.05

Nunca mais sou teu amigo.

Há sorrisos e conversas que saem muito caros. São erros na sua génese e no seu término. Revolvem-nos as entranhas com um ânimo visceral dominado por poucos, despertam-nos para aquele som, aquela luz, aquele imaginar tolo... e acabam invariavelmente por trazer uma pequena amostra de infortúnio. Este prazer adverso que nos cega parece platina. Ou outra coisa valiosa. Ou uma doce ilusão. Aquela em que nos deixamos levar sem medos, aquela da segurança firme... sim, aquela das pequenas coisas.
E agora que me cega também a dor e o peso nas costas, deito-me a pensar em como seria bom se, num acesso de loucura, conseguisses ver aquilo que só nós, os cegos, conseguem ver neste momento. Pudesse eu apostar nas corridas de cavalos, apostava. Pudesse eu matar, fá-lo-ia com um sorriso bem disposto. Daria o que de melhor tenho.

27.5.05

Faster. (Again.)

Grita por um pouco de silêncio e deixa-se cair num gesto desiludido, gracioso e perfeito. A queda enche-o de adrenalina e os olhos fecham-se por antecipação, enquanto os músculos se contraem propositadamente pela última vez, como que numa despedida sentida. Impotente, resta-lhe aproveitar o momento que escolheu para último da sua vida. Despedem-se dele vacas e pilotos da força aérea. As vacas dizem “mu!” e os pilotos da força aérea dizem “buh”. Eles não toleram falta de coragem nem toleram que argumentem que nem todos os suicídios se devem a cobardia e que há realmente pessoas que têm vontade de o fazer, não por anomia, mas por outros motivos. Motivos maiores. Que se fodam os pilotos da força aérea. Se ele quisesse, podia ver outras pessoas. As vacas, essas não o desiludiram. Como sempre.

23.5.05

Pi pi pi pi pi.

Sentei-me no hall de entrada, carregando uma esperança aparentemente vã de te ver passar novamente. Tentei deixar-te regressar dos teus calhaus predilectos antes que fosse tarde demais (como da outra vez) mas não consegui concentrar-me. Enganei-me a contar os dedos da mão esquerda e ficou registado que tenho quatro, como o outro.
(Ninguém acredita e ninguém devia acreditar no que eu digo. Porque eu pareço um embaixador corrupto por corvos e gelados de baunilha e chocolate estragado e porque ninguém gosta de baunilha. A não ser que seja algo realmente importante. Aí sim!, vale a pena.)
Olhei para o carro, acabado de chegar e de montar (começando por baixo) e pendurei-me com força no candeeiro da parede do lado esquerdo, junto ao segundo andar. Chegaste acompanhada, olhaste para mim de relance.
Olhaste outra vez, como que para confirmar.
“M.!?”
“Não, não. É engano.”
“Ah, desculpe o incómodo. Boa tarde, então.”
Não queria que me visses neste estado. Resolvi mudar de nome.

15.5.05

Pequeno apontamento.

Tu és esperar que possa fazer melhor agora. E és muito de mim num pequeno minuto. E o mundo, às vezes. És o calor e o frio, tantas vezes como és poder dizer-te tudo e não querer. És segredo público e condenável. És emoção e tentativa. És ser parvo e vivo. És estar bem e cheio. És satisfação duradoura e imediata. És ruptura óbvia. És cliché. Não. És pedra pequena, sem que saibas. És as palavras que não saem agora. És céu e noite quente. És quarto e tecto. És momento. És o sono e o sonho e o acordar. És música repetida cinquenta vezes. És acorde. És ar fresco pela manhã.

4.5.05

Conceptualização.

Pode ser que não esteja tão longe como penso estar. O penteado reflecte a personalidade: idiota. Pode ser que não seja tão linear como penso ser.
Tentei chamar um senhor que deixou cair o chapéu junto à sarjeta número doze do lado direito da rua que só nós conhecemos. Números pares. Coincidência ou não, nestas circunstâncias, par é perfeito. Depois de gritar a plenos pulmões e de ter sentido uma dor na zona lombar, parei. “Deve ser surdo”, pensei eu.
“Surdo és tu! Eu sei que deixei cair o chapéu. E sei que me chamaste e tal... mas afinal, como sabes tu o meu nome? E como sabes o meu número do bilhete de identidade? Sei que não prestas. Até podia ser surdo. Mas nunca seria tão mau como ser tu.”
“Ser eu é bastante bom até, caro senhor. Senão, veja: dois quilos de açúcar; dois ovos; e doze momentos de tédio interessante; dezasseis vezes sessenta e quatro mil e dois paus de canela.”