23.10.06

As melhoras

Ainda não encontrei os teus membros decepados em lado nenhum. Procurei em quase todas as ruas da cidade – demorei três dias – mas parece que quem tos arrancou o fez sem deixar qualquer rasto. Não quero dizer que foi um bom trabalho mas a verdade é que foi executado com mestria. Reparaste nos cortes ligeiros mas firmes?

É pena não te lembrares de nada. Espero que, no dia em que me arrancarem os braços com uma faca de talhante, não fique inconsciente. Nunca me perdoaria tal coisa. Quer dizer, não digo que não te devas perdoar por não te lembrares de nada, por não teres aguentado a dor e por estares a recuperar tão lentamente do trauma... mas pronto, eu não me perdoava.

Pronto, quis só trazer estas flores e umas luvas (ou serão meias?) que fiz para os teus cotos. Espero que gostes.

21.10.06

Automático

Bipolariza-los. Olhas, escolhes cuidadosamente o alvo e esperas pacientemente que o tempo se encarregue da realização da tua tarefa. Cobardemente, assumes o outsourcing vergonhoso como um mal menor (as vantagens que traz fazem esquecer a imagem que deixas, uma imagem de merda). E vives contente, e triste, como se não houvesse amanhã. Para ti, de facto, não há amanhã. Alimentas-te do presente, e do passado (mas nunca, nunca do futuro), vives como parasita que, agora que me obrigo à reflexão, és.

E, por ti, todos cuspiríamos sangue sem muito esforço; por ti, meu caro, todos seríamos apenas uma grande distorção da realidade, nevoeiro uno. Contas tudo e perdoas-te com a mesma facilidade; perdoas as palavras deles e os problemas que lhes causaste porque o teu coração é muito, muito grande.

Cresce e segue o caminho inverso. Não te esquecerão enquanto a noite por aqui estiver. Amanhã, esse que tu não conheces, logo se vê.

19.10.06

Senso comum de início de século

Num mundo cada vez mais complexo, começam-se os textos assim para resumir o inexplicado explicável. Acaba por resumir a sombra que sabemos pairar sobre o tal mundo cada vez mais complexo e acaba por trazer conforto à nossa existência ignóbil e ignorante. O mundo está cada vez mais complexo, é um facto. Mas ainda se fala do início do século como se fosse hoje e do século XX como se ainda cá estivesse. São, no entanto, hipóteses de início de século para enfrentar os textos escritos no âmbito de um mundo cada vez mais complexo em que os povos estão mais próximos e, no entanto, tão mais distantes do que há apenas 20 anos.

17.10.06

Olhos

Choveu muito naquela noite. O céu estava mais claro do que era habitual, as nuvens davam-lhe outra cor. Ouvia-se a chuva a cair nas ruas e nos telhados, mas sobretudo nas caixas das persianas das janelas que as tinham. De resto, quase nada. Um ou outro carro passava, esporadicamente, na rua lá ao fundo sem fazer barulho por muito tempo. Três ou quatro janelas iluminadas denunciavam pessoas acordadas a horas indecentes. Mais nada senão os prédios de paredes molhadas, luzes amarelas pouco interessantes e uma neutralidade cromática disfarçada.

Lembro-me que choveu muito naquela noite. Agarraste-me no braço e levaste-me até à cama às escuras, às minhas escuras, sem incidentes para além do habitual. Deitei-me e logo os esqueletos empoeirados se aconchegaram ao meu lado.

E dormi como sempre, calmo e quentinho por fora.

9.10.06

Lux

A cabeça, encostei-a ao vidro do carro.