Volto às noites sem sono e às canções. Regressam os bloqueios pouco impressionantes e os fantasmas do costume. A canção, no entanto, é nova. Mas é como se não fosse. É como se fosse minha, e quem me dera que fosse minha. Por razão nenhuma para além da profunda adoração.
Será que os dedos dela tremiam? Quando escreveu, quando gravou, tanto faz. Será que os lugares-comuns por que passou o são mesmo? Ou será que desrespeitou a ordem e deu aos lugares sentidos menos comuns? Tanto faz, a sério. É quase inevitável.
É demasiado tarde para deixar que os bloqueios pouco impressionantes e os fantasmas do costume me vençam. Mas acabarão por me aniquilar. Fica aqui a intenção de lutar contra isso, contra o aparentemente inevitável.
Mas sempre que começa sinto uma vontade enorme de continuar. A voz dela nem é especialmente bonita. Mas assim, grave e controlada,... é simplesmente linda. E ela, mesmo sendo velha, casada e relativamente feia, fica linda também. E a delicadeza com que tudo soa não deixa pensar na bateria nem nas outras músicas.
Não me deixa pensar de todo. E por isso regressam os bloqueios pouco impressionantes e os fantasmas do costume. Porque não há sinal verde que me deixe sair deste escuro cruzamento nem há vidro que consiga ser aberto sem que tudo se explique muito bem. E recomeça.
Às vezes parece tortura, o tipo bom. Por agora, é mesmo isso. Uma forma cruel de me fazer falar, calar, mexer, andar, sentar, cair, morrer (isto já é parvo)... sem que eu sequer perceba que não tenho mesmo vontade de o fazer. Vêm as palavras “amor” e “vida” e “jornada” e “pôr-do-sol” à cabeça, porque é assim que os românticos vêem este generalizado mundo.
Mas a luz do quarto que interessa mantém-se acesa durante todo o dia e toda a noite, como que a lembrar-me de que o romance interessa somente como género literário e todas as outras aplicações para a palavra são idiotas. Pés no chão, lugar-comum, concentração, lugar-um-tanto-ou-quanto-menos-comum, correr das vozes, lugar-comum, ir para casa, lugar-comum.
Repete, por favor. Produz menos, melhor, mais. E aceita que não há lentes que vistam o mundo de lareiras quentinhas no Inverno e de fins de tarde amenos no Verão. Pés no chão, outra vez, vai para casa, outra vez. Deixa-me em paz. É tarde.
8.1.07
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1 comentários:
E estava a tentar adivinhar quem seria a musa (se é que existe mesmo). Se seria a Fiona ou a senhora pouco sã dos Cat Power.
Provavelmente não fico a saber.
Mas gostei bastante do que li.
(se é que interessa saber)
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