12.2.07

Aneurisma

É preciso limpar o sótão, meu menino. É preciso lavar a entrada da casa porque a consequência natural é que a casa tenha um aneurisma. É preciso ter tudo arrumado mas é preciso que não o faças só por ser preciso porque a consequência natural é que a casa tenha um aneurisma. Não gastes demasiada água nem faças barulho com o aspirador. Escraviza-te, mesmo que os electrodomésticos sintam muito menos do que tu. Esfola os joelhos, estica o braço pelo meio do cotão para poderes chegar àquele papel importante que ficou caído por trás do móvel. Mas cuidado. Se estiveres cansado, se sentires dor, muita dor, pára. Senta-te durante meia hora a ver televisão ou a ouvir música. Abre as janelas e fica calado. Passeia pela casa, mesmo pela casa de banho e pela cozinha, ainda que não faça sentido. Faz tudo no menor tempo possível para que a casa fique habitável. Mas não forces.

Se a casa tiver um aneurisma, paciência. Venha de lá mais azar. Morres, meu menino, por dentro, por fora e para o mundo. Vais querer sentir a humidade de uma manhã de Janeiro e o sol quente de Agosto. Vais querer tudo o que te esqueceste de querer até agora. Mas adivinha. Passou.

Vais querer fazer as pazes com Deus e ele não vai olhar-te de lado porque tu acreditas que não. Todo o processo é ridículo e unilateral. Não esperes prendinhas depois de morto. Espero que sufoques, meu menino, mas só depois de me limpares a casa. Sobretudo o sótão, que está mesmo a precisar.

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