30.7.07

Quintais

Posso dizer com alguma segurança que vivo em dois mundos.

Um, o real, onde não tenho quaisquer problemas sérios, ocupa-me a maior parte do tempo. Ando por aí a fazer as coisas que me apetece e que preciso de fazer ou a arranjar maneira de vir a fazê-las num futuro próximo. Tenho a minha agenda (num sentido genérico do termo), as conversas, os amigos, a família e as outras coisas normais. Sim, numa eventual curva de Gauss, eu colocar-me-ia junto à maior parte das pessoas.

No outro mundo, um, digamos, imaginário (um equivalente ao mundo do astronauta Spiff), as coisas são ligeiramente diferentes. É mais sensível a flutuações, ao cinema, à televisão e sobretudo à música. Alimenta-se dos estímulos que recebo e forma algo inteligível. Tem mais ou menos o mesmo modus operandi do processo de fabrico dos sonhos (segundo a interpretação que se aproxima mais do que me parece plausível): coisas soltas de diferentes proveniências juntam-se num bolo estranhíssimo e tentam fazer sentido.

No segundo caso, vence aquela espécie de existencialismo romântico de que já falei algumas vezes. Vence também a dor de pensar, como alguém lhe chamou, e os problemas tornados sérios pela hora habitualmente avançada. Neste mundo imaginário, tudo tem significado: o mais inócuo dos gestos, uma palavra mal atribuída ou uma opinião mais forte. Tudo é obsessivamente analisado até ao último pormenor, como se disso dependessem vidas. De certa forma, é mesmo assim. Tudo me dói.

Em ambos os casos, exagero na utilização de termos como "de certa forma", "de qualquer maneira", "assim", "pelo menos" e outro tipo de expressões habitualmente acompanhadas por vírgulas. E é engraçado que façam sempre sentido. Quer dizer, quando eu os uso, fazem. Não se pode dizer o mesmo de todas as pessoas.

Continuarei a viver em dois mundos. No primeiro, continuarei a ser relativamente normal (com ênfase no "relativamente"). No segundo, continuarei com partos difíceis.

Este texto não é de um nem de outro.

1 comentários:

M.R. disse...

Preguiçoso, pá.

(Obrigas uma pessoa - milhares, vá - a reler quintentas vezes este texto.)