29.3.07

O sequestro

Aos que perderam a fé, aos que nunca a tiveram e aos que a vão descobrir ainda.

Gostava de ter visto a tua cara quando viste que lá tinhas estado o tempo todo. Tenho a certeza de que nunca te vi tão claramente como naquele dia em Estocolmo. Tomaste os teus comprimidos para acabar com o medo e acabei com medo de ti. Transfiguraste-te tão lentamente como o mundo gira sobre si mesmo. Por mais que tentasse ficar a ver-te mudar, só conseguia magoar os olhos. Olhava mas não via. Acabaste por compensar o frio com um calor mentiroso, pelo menos aos meus olhos e aos dos outros.

Vão tratar-te com condescendência e paternalismo e não vais compreender porquê. E vais correr para a tua melhor amiga, para o teu quarto ou para o que quer que seja o teu coito e chorar como a menina que és.

Não percebes e vais continuar sem perceber. Porque podia ter sido pior e porque acabaste morta. E, assim como assim, já estás morta desde 2005.

Não, não foi em 1987.

Pois parece.

21.3.07

Sobre o som

Ouve-se ao longe a fome de cura. Ouve-se a espera pelo milagre e a promessa que o vento traz. Ouve-se o doloroso som da desilusão.

A espera funde-se com a desilusão porque nunca acaba realmente. Resta o sorriso resignado.

Ouve-se o raspar das unhas no quadro e já não incomoda. Já nada incomoda. A dormência é senso comum e todo eu estou dormente.

Ouve-se, por engano, uma nuvem carregada e um pássaro ao longe. Já passou; não passou de um engano. Foi um prazer.

Parece que voltei a fazê-lo.

6.3.07

Olá outra vez

Às vezes, o momento é tão especificamente seleccionado que parece de propósito. É como se uma centena de pequenos fragmentos ininteligíveis me surgisse em forma de carta. Não faz sentido que consigam integrar-se tão bem na realidade. Subsistem durante dias, semanas ou meses num esquema de vida formidavelmente parasitário. Disparam flashes quando acordo e fazem-me temer o dia e as notícias. Tem sido assim desde há muito tempo. Poderia mudar agora; não me importava.

Sinto-me culpado. Sei que não o sou e que é egocentrismo puro. Mas preciso disto. É a pequena tortura necessária para que amanhã de manhã acorde como de costume, ensonado, preguiçoso, cheio de restos da noite.